A Academia Nacional de Belas Artes dá continuidade na próxima segunda-feira, dia 11 de Maio, pelas 15:00h, ao Ciclo de Conferências – 2026.
A comunicação será proferida pela Académica Professora Doutora Sónia Azambuja, e tem como tema A Natureza como Código no Renascimento: a Pintura de Vasco Fernandes (Grão Vasco).
Vasco Fernandes (c. 1475–1542), conhecido como Grão Vasco é uma das figuras cimeiras da pintura portuguesa do Renascimento e o principal mestre da oficina de Viseu, tendo desenvolvido a sua atividade artística durante os reinados de D. Manuel I (1469–1521) e de D. João III (1502–1557), num dos períodos mais decisivos da cultura portuguesa quinhentista. A conferência “A Natureza como Código no Renascimento: a Pintura de Vasco Fernandes (Grão Vasco)” propõe uma leitura da pintura quinhentista portuguesa a partir de uma ideia central: na obra de Grão Vasco, a natureza não se limita a enquadrar a cena, mas constitui uma verdadeira linguagem simbólica, herdeira da minúcia da iluminura e pintura flamenga, em que cada detalhe da natureza reforça o sentido simbólico da obra.
A Natureza como Código no Renascimento será, assim, o eixo interpretativo desta conferência, procurando demonstrar que plantas, animais, frutos, árvores e paisagens surgem nas composições de Grão Vasco não apenas como elementos de enquadramento ou decoração, mas como símbolos que ampliam o sentido das narrativas sagradas e revelam a cultura humanista do seu tempo. No âmbito do estudo que desenvolvemos sobre as plantas e os animais na pintura dos séculos XV e XVI em Portugal, os pintores de retábulos com maior diversidade de espécies identificadas são Vasco Fernandes, com 74 espécies; Francisco Henriques (c. 1470–1518), com 61; Jorge Afonso (c. 1475–1540), com 56; Gregório Lopes (c. 1490- 1550), também com 56; e Garcia Fernandes (ativo 1514‑1565), com 39. Todos estes artistas se encontram relacionados entre si por vínculos profissionais, de amizade e/ou familiares.
A conferência abordará ainda o papel da ilustração científica de plantas no Renascimento, associada à Botânica, à Medicina e à matéria médica, mostrando como a representação rigorosa da flora se tornou instrumento de identificação, estudo e transmissão de saber.
O antigo retábulo da capela-mor da Sé de Viseu, realizado entre 1501 e 1506 por Vasco Fernandes e Francisco Henriques, constitui uma das obras fundadoras da arte renascentista portuguesa e um testemunho maior da pintura luso-flamenga. Entre os exemplos abordados, destaca-se o painel “Fuga para o Egito”, no qual surgem espécies botânicas associados à iconografia cristã, como a pera, a aquilégia, a urtiga e a erva-benta. Em 1514, encontra-se documentada a atividade de Vasco Fernandes em Lisboa, ligada à oficina de Jorge Afonso, pintor régio de D. Manuel I e figura central da oficina régia de Lisboa.
Será igualmente analisada a obra “Cristo em Casa de Marta e Maria” (1535–1540), associada ao ambiente erudito de D. Miguel da Silva (c. 1480–1556), uma das figuras mais cosmopolitas do Renascimento português. Diplomata na cúria romana, próximo dos círculos pontifícios e de papas da família Médici, D. Miguel da Silva foi designado bispo de Viseu em 1526 e nomeado cardeal pelo papa Paulo III, em 1539. A sua projeção europeia é eloquentemente testemunhada pelo facto de Baldassare Castiglione (1478-1529) lhe ter dedicado Il libro del Cortegiano, publicado em 1528, uma das obras fundamentais da cultura cortesã do Renascimento.
Assume especial relevância o “Calvário” (1530‑1535), originalmente localizado no topo sul do transepto, na capela do Santíssimo da Sé de Viseu, e atualmente conservado no Museu Nacional Grão Vasco. Nesta obra, a presença da tanchagem-maior (Plantago major L.), planta autóctone, ruderal e medicinal, permitirá refletir sobre a importância da identificação científica das espécies na interpretação das obras de arte.
Pretende-se, assim, demonstrar que Grão Vasco constrói uma pintura em que o mundo natural se transforma em código teológico, moral e cultural. Decifrar essa natureza é reencontrar a profundidade intelectual do Renascimento.
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